Mão dupla: como o intercâmbio de turismo integra educação, cultura e economia local
Escolher um intercâmbio não significa escolher apenas onde estudar: qualidade da educação, perspectivas profissionais, idioma e características do país anfitrião também estão entre as motivações

Internacionalizar é inserir o destino em redes internacionais de pessoas, experiências e relações – Foto: ansiia/Magnific
Você já parou para pensar quando educação e turismo se encontram? Se já, o turismo de intercâmbio deve ter aparecido como uma resposta natural a essa questão, uma vez que uma pessoa viaja para outro país para estudar, podendo muitas vezes ficar por semanas ou meses. Durante esse período, aluga um quarto, usa transporte, frequenta restaurantes, conhece atrações, faz amigos, participa da vida cultural e viaja nos fins de semana. É nesse encontro entre viagem e aprendizagem que encontramos o turismo de intercâmbio.
“Na literatura científica, ele integra o chamado turismo educacional. Essa relação pode acontecer de formas diferentes: às vezes, aprendemos porque viajamos; em outras, viajamos justamente para aprender. É nesse segundo caso que estão os intercâmbios universitários, os cursos de idiomas, os programas escolares, os estágios e outras experiências de formação realizadas longe de casa”, explica Vitória Avelino, doutoranda em Turismo pela Universidade de São Paulo, que faz uma observação importante: escolher um intercâmbio não significa escolher apenas onde estudar.
Um estudo publicado na revista Tourism Management Perspectives, com estudantes internacionais no Chipre do Norte, identificou motivações relacionadas à qualidade da educação e às perspectivas profissionais, mas também ao idioma e às características do país anfitrião. “Ao escolher onde estudar, portanto, o intercambista também escolhe uma cidade, uma cultura e uma experiência de vida.”
Ela informa ainda que uma revisão publicada no Journal of Travel Research reuniu estudos sobre os benefícios educacionais das viagens e encontrou resultados relacionados ao crescimento pessoal, a novas habilidades e à aquisição de conhecimento. “Parte importante dessa aprendizagem acontece fora da sala de aula: na convivência com outra cultura, na adaptação a novos costumes e na necessidade de resolver problemas cotidianos. O destino não é apenas o lugar onde está a instituição de ensino. Ele também participa da formação de quem viaja. Quando olhamos pelo lado de quem recebe, o turismo de intercâmbio ganha ainda mais importância. O intercambista permanece semanas ou meses no destino, participa da economia local e utiliza diversos serviços.”
Vínculo
Os pesquisadores destacam ainda o potencial desses estudantes como embaixadores do destino. Depois de meses vivendo em um lugar, o intercambista volta para casa com histórias e uma imagem daquele território muito além da visão de quem passou apenas alguns dias ali. Mas aqui Vitória faz outra observação que considera vital, a de que existe algo ainda mais valioso do que o gasto ou a permanência: o vínculo. “Uma pesquisa de 2024 com estudantes internacionais na China encontrou uma relação positiva entre a experiência de estudar no exterior e a lealdade ao destino. A imagem do lugar e a solidariedade emocional desenvolvida durante a permanência ajudam a explicar o desejo de retorno e de recomendação”, diz ela, antes de completar: “É aqui que o turismo de intercâmbio encontra uma questão essencial: a internacionalização”.
De acordo com ela, internacionalizar não é simplesmente aumentar o número de estrangeiros que chegam. É inserir o destino em redes internacionais de pessoas, experiências e relações. Um intercambista pode voltar como turista, recomendar a cidade, receber amigos e familiares, manter contatos acadêmicos e profissionais ou continuar falando daquele lugar anos depois de partir.
“Por isso, educação e turismo se encontram de uma maneira muito particular nesse segmento. Para quem viaja, o intercâmbio oferece formação, descoberta cultural e desenvolvimento pessoal. Para quem recebe, traz permanência, movimentação econômica, projeção internacional e relações que podem sobreviver à viagem. No turismo convencional, um dos grandes desafios é fazer o visitante querer voltar. No intercâmbio, existe a possibilidade de algo ainda mais poderoso: fazer com que, quando ele volte para casa, o destino continue viajando com ele. Porque internacionalizar um lugar não é apenas fazer o mundo chegar até ele. É fazer com que uma parte dele chegue ao mundo”, afirma.